sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Professora sai da escola e vai para a informalidade

Ao som de uma canção dos Beatles tocada ao vivo na Concha Acústica, em frente ao Centro de Comunicação e Expressão da UFSC, muitos estudantes descansam após o almoço sentados na grama. Há poucos metros dali, em lugar estratégico, Marilha Zanin tenta convencer com sotaque manézinho uma cliente a comprar livros infantis para suas filhas. “É a melhor coisa que tem, moça. Mesmo se elas não quiserem ler no começo, deixa na cabeceira da cama que uma hora elas vão gostar”, garante a vendedora, atrás de sua mesa coberta com livros e discos de vinil usados, e quadros pintados por ela.

Marilha Zanin conhece bem as crianças. Por 14 anos lecionou em escolas municipais e estaduais de 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental. Como professora substituta, ganhava pouco mais que 500 reais. Somados o baixo salário com a rotina desgastante, decidiu ganhar a vida na rua, no trabalho informal. Durante a semana, ela leva sua barraquinha para o centro, Agronômica, Santo Antônio Lisboa e Trindade. “Aqui na Universidade o melhor dia é quarta, porque sempre reúne muita gente aqui com esses shows” conta, apontando para a Concha. Apesar disso, é em Santo Antônio de Lisboa onde Zanin consegue atrair mais clientes. “Lá eu consigo montar uma barraca maior e meus quadros ficam mais à vista. As pessoas chegam perto para dar uma olhada e acabam comprando alguma coisa”, conta com alegria.

O sorriso da senhora só diminui quando se lembra do início de seu trabalho informal, quatro anos atrás. Ela conta que, apesar de ter carro, tinha medo de dirigir e carregava suas mercadorias com um carrinho-de-mão. Hoje os principais problemas são a chuva e saber escolher que tipo de livro ou disco levar para cada bairro. “Tem dia que vendo só trinta reais. Não pago nem a gasolina”, lamenta. Quando professora, Marilha Zanin ganhava melhor, mas ela se diz feliz com a nova rotina, especialmente porque consegue tempo livre para pintar seus quadros. Ao se despedir, a simpática senhora mostrou-se bem adaptada como vendedora. “Ah, moço, aparece aqui semana que vem que vai ter mais livro. E também se tu tiveres algum que queira trocar, aparece aí, tá?” finalizou, com o típico sorriso do bom vendedor.

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